YOU ARE NOW GOING TO SEAT IN SPACE
Longe, temos de aprender outra vez um sem número de coisas. Começar de novo como se nunca tivéssemos começado. A sensação de estranheza, previsível, entranha-se, e mal damos por isso. Depois, é-se alheio a tudo. Ou quase.
Nos aeroportos acontecem estas primeiras metamorfoses, uma espécie de antecedência do estado primário a que voltamos quando aterrarmos.
A música dá-nos conta disso, mesmo se ela existe para não exisitir. Para se esconder.
Desilusão com Macau
É claro que o defeito é meu, mas tive a maior dificuldade em adaptar-me a Macau. O fascínio oriental, a sensualidade dos lugares e dos gestos, essa atmosfera de In The Mood for Love está longe de corresponder à realidade que encontrei. Que é que fui descobrir? Milhares de chineses que invadiam o hotel em hordas ruidosas, e havia excesso de gente em todo o lado. Aqui nada de novo: o número excessivo lá estava, minando a tranquilidade de cada lugar. Com excepções. Fui amavelmente convidado para um lindíssimo restaurante tailandês onde tudo murmurava serenidade e havia a presença surda das ondas do mar em pano de fundo sonoro. Ali reinava a calma, a tranquilidade, uma espécie de harmonia, que faltava em tantos lugares de Macau que fui vendo todos os dias.
Há aqui uma questão de escala. A arquitectura é quase sempre esmagadora e sentimos o pouco que somos andando pelas ruas - bicho da terra vil e tão pequeno. Depois, há os casinos, porta sim, porta não. Procuram ser deslumbrantes e são a apoteose do kitsch na sua dimensão mais obscena. Ora o kitsch é a manifestação do mal, como sublinhou Broch e como vimos comentado num livro magnífico recente de Filomena Molder: O Absoluto Que Pertence à Terra (Vendaval). E uma sociedade dominada pelo jogo e a prostituição não é certamente o território do bem. Podemos ver ruínas romanas ao lado de uma montanha que parece de papelão a anteceder uma incrível reconstituição que se assemelha a Portugal dos Pequenitos. Um pavor, um pesadelo de lama visual.
Os chineses de Macau não falam nem entendem o português. Tantos anos de presença e o resultado é este: tirando aqueles que estudam português, os outros não percebem uma palavra da nossa língua. É verdade que também não falam inglês. Porque turisticamente não parecem ter necessidade. Mesmo no hotel, regressamos a uma linguagem gestual que está na origem dos piores mal-entendidos.
Isto não pode fazer esquecer o esforço generoso daqueles que ensinam aqui o português. Mas é pouco.
Há também as pessoas: as vozes são esganiçadas e contundentes, criando uma atmosfera de permanente agressão. As mulheres parecem tábuas de engomar com aquele andar de patas-chocas que define a gravidez avançada. Apesar de mini-saias frequentes, não há nelas (e também não há neles) a menor sensualidade. Há sociedades, como a italiana, em que a libido se desencadeia em todos os lugares, da paisagem às pessoas. Aqui, é o contrário. Tudo isto funciona mecanizadamente e por vezes de uma forma bruta e desagradável. E, por fim, aquilo que é o encantamento parisiense (ruas com belíssimos cafés com espelhos e madeiras) não existe por estas bandas. Andamos avenidas intermináveis e não há um só lugar que nos permita ver passar as pessoas e olhar as nuvens que se acumulam.
O calor e sobretudo a humidade criam um sentimento de opressão que pode ser insuportável. Sentimos a desolação de sociedades assim, onde a doçura de viver ou o ideal do socialismo se deixaram contaminar pelo lucro desmedido e a incomunicabilidade generalizada.
Eduardo Prado Coelho
Na blogosfera, desancar em Eduardo Prado Coelho já há muito deixou de ser uma micro-causa, e mesmo nos jornais, até naquele onde quase todos os dias somos presenteados com as crónicas do senhor, já se deu conta do desgaste e erosão que o tempo revelou nesses textos. Conceda-se que num percurso tão longo é natural sucederem-se altos e baixos. Mas o que me traz aqui não é um desses momentos, alto ou baixo.
Aquilo que se reproduz ali atrás, na falta de melhor, é simplesmente vil, até para usar uma palavra que EPC diz que somos.
Que tipo de pessoa vem a Macau e fica desiludida por não encontrar Paris? Alguém que cristalizou no etnocentrismo e no provincianismo. Alguém que vê no fio do horizonte não mais do que o fim do horizonte.
É difícil acreditar que EPC nunca tenha ouvido falar em idiossincrasias, em traços e identidades culturais. Mas como explicar que descreva esta terra, o povo e o seu linguajar da forma como o faz? Sobre o que escreveu acerca da sensualidade nem falo, para não ser deselegante como o senhor.
Mas difícil mesmo é acreditar que EPC esteve em Macau. Ou então não se deu ao trabalho de conhecer o território, de procurar saber. No entanto, fala dele com o atrevimento de um familiar.
O pior é que quem vive em Macau já se habituou a estes discusros de quem se põe a olhar para o Oriente a partir do Marquês do Pombal. Discorrem longamente sobre o que desconhecem e são assertivos como só os ignorantes. São arrogantes e superiores. Ditam e ditam. Saem do sítio e é como se não saíssem, num movimento que devia ser invisível e infelizmente não é.
“É claro que o defeito é meu”, começa por dizer EPC. É claro. Talvez EPC veja muitos filmes, e por isso lá terá sempre Paris, como se diz no outro. Mas o mundo vai mais além. É mais do que isso. Alguns é que não chegam lá.
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