...

Segunda-feira, Julho 31, 2006

 
No próximo mês estamos mais por aí e menos por aqui. Boas leituras e não só.

 
CRÓNICA #4

Filmes por tudo e por nada

Dizem que quando estamos para morrer, depois de se avistar a luz branca, desenrola-se o filme da nossa vida. Não será bem quando estamos para morrer, digo eu, que quem diz isto viveu para contar. Será mais quando estamos para quase morrer. Toda a diferença. Enfim, não tanto quanto aquela que uma figura famosa de Portugal nos explicou sobre estar vivo e estar morto. Mas adiante. Os filmes. É curioso como os filmes estão sempre presentes. Até quando julgamos que tudo vai acabar eles começam.
Pessoas há que vivem com músicas dentro da cabeça. Acordam e zumba!, o dia todo com uma melodia qual melopeia (nem sempre tão agradável), a insurgir-se lá dentro, interminável, pegada e a zumbir. Depois há os que vivem a fazer filmes.
A imaginação, constata quem se perde em efabulações e depois atenta à sua volta, é facilmente superada pela realidade. Convenhamos que é uma luta desigual. Enquanto a imaginação esbarra nas paredes que protegem os nossos cérebros, da realidade podemos dizer que não se conhecem fronteiras, pela simples razão de que não se conhece sequer a existência física de um lado de lá. "Nenhum homem é uma ilha", lia-se numa inscrição em jeito de prefácio que antecedia uma das versões portuguesas de "Por Quem os Sinos Dobram", de Hemingway. Penínsulas, talvez. Ligadas a um continente tão extenso quanto impossível de abarcar, de medir. Os cientistas esforçam-se por demonstrar que tudo ou quase tudo dentro das pessoas é previsível. Até a insistência em olharmos para nós como ilhas. "Os sentidos enganam", avisava Aristóteles.
Na verdade, Hemingway não veio ao caso por acaso. Dizia o escritor que nos seus livros se limitava a espelhar a realidade. Sem tirar nem pôr. Por mais discutível que o projecto se apresente, até porque, em Hemingway há um envolvimento (como aconteceu durante a Guerra Civil espanhola), que resulta num olhar enviesado. E aqui abstenho-me de julgamentos morais - concedo apenas que tomar partido é inevitável.
Se me perguntam que partido tomo em relação aos "realistas" e aos "ficcionistas", respondo que prefiro a companhia de Borges ou de Calvino. Mas deve ser porque acredito, ou sou ingénuo a esse ponto, em transformações, mínimas que sejam. Uma espécie de transferência. A vida que imite a arte. Ponto.
Não sei se a estória do lixeiro chinês que, ao longo de 13 anos, encontrou 21 bebés abandonados, todos eles meninas e vivos, pertence à categoria "a arte imita a vida" ou o oposto. Desconfio que o nosso lixeiro não seja como o "Velho que Lia Romances de Amor", do livro de Luís Sepúlveda. Para já, nem é velho. Tem 50 anos, vive na cidade de Kunming, no sudoeste. Chama-se Hu Tongkai e ganha o que um lixeiro na China ganha, cerca de 400 patacas mensais.
Contudo, o mísero salário que aufere não impediu que tivesse adoptado uma das meninas, a quem deu o nome de Jingjing. Quando a encontrou pesava meio quilo. A mulher de Hu, que não suportava ver o marido levar os bebés para casa, pediu o divórcio. Os dois filhos do casal também se afastaram. Isto é o que se sabe, uma meia dúzia de factos com que se faz uma notícia.
No entanto, como deixar de imaginar o que sobra do relato? Podemos tentar as elucubrações mais fantásticas sobre Hu Tongkai. Dizer que é um anjo, mas não se lhe vêem as asas. Dizer que tem uma missão, mas não se conhecem os emissores nem a ordem, secreta. Dizer, dizer...
O filme que faço é o de um homem só. Um solitário, mas não um justiceiro. Deve comover-se "por tudo e por nada", como dizia o outro. Claro que prefere trabalhar sozinho, sem o barulho dos camiões e dos contentores a serem despejados. Calcorreia as ruas numa perscrutação paciente. Não tem pressas. E deve, só pode, ser feliz. Porquê? Por tudo e por nada.

Publicado na edição de 26 de Julho de 2006 do Ponto Final

 
CRÓNICA #3

Termo de comparação

O epíteto "Monte Carlo do Oriente" já terá caído em desuso, quando se quer referir Macau. Provavelmente, ninguém mais se lembra de comparar esta cidade à outra do Mónaco, porque provavelmente poucos se lembram com exactidão quando foi e como foi que alguma vez existiu aqui algo parecido.
Agora que os tempos que correm (e como correm) são outros, o termo da comparação desviou-se mais para ocidente, até ao extremo. Las Vegas, pois. A cidade erigida no deserto do Nevada, onde muitos continuam a procurar a realização do sonho americano, quer o sejam ou não, é a um mesmo tempo o modelo a inspirar e o objectivo a ultrapassar. Ambos, modelo e objectivo, estão quase resolvidos. Uma questão de tempo.
Quando a Las Vegas que conhecemos hoje foi criada, a meio do séc. XX, reinavam histórias de submundos, protagonizadas por senhores do crime organizado que se digladiavam garbosos por entre o "glamour" dos "crooners" que brilhavam nos palcos. Espectáculo. A lei ia sendo ditada consoante a sorte, ou o azar. Mas era tudo (quase tudo) resolvido à boa maneira "old school". Ou não estivessem no "far west". E o deserto, terra sagrada para os índios, servia perfeitamente para o descanso eterno dos muitos que se "portavam mal". Outros tempos? Parece.
Hoje, o negócio dos casinos deixou de ser simplesmente o negócio dos casinos, passou a indústria, e tudo é estéril, asséptico, com o jogo promovido a entretenimento para toda a família, um "vício" do qual sempre se pode fazer uma pausa para assistir ao concerto de Céline Dion. Todos os dias. Ou ver os tigres brancos dos outros. E, claro, deve ser proibido fumar enquanto se aposta.
Mas a Las Vegas que existe hoje, a dos mega "resorts" que desafiam tudo, começou em 1989, com a abertura do primeiro casino do género, "The Mirage", de Steve Wynn. Assim se inaugurava a chamada "Las Vegas Strip", uma avenida de 6,7 quilómetros localizada na zona sul da cidade, e onde se estendem agora a maioria dos casinos e "resorts". Passaram-se 17 anos, e ainda hoje "a downtown" de Las Vegas esbraceja tentando recuperar-se dos efeitos nefastos da "Strip" no seu mercado turístico e no seu comércio.
Inventivas, as autoridades planearam diversificar a economia, alastrando o raio de acção para lá do turismo, investindo numa Las Vegas atractiva aos olhos de banqueiros e mesmo industriais. Uma política fiscal encorajadora e requisitos simples resultaram num crescimento da população além do esperado. Nessa vaga, há um povo que se destacou, os chineses. A "Chinatown" que, em 1990, consistia apenas num centro comercial, é hoje um complexo de muitos centros comerciais. Os asiáticos, já que na "Chinatown" existem desde filipinos a vietnamitas, dedicam-se aos restaurantes, ao comércio e aos serviços para os seus. Rondam actualmente os 5 % do total da população, estão representados por uma Câmara do Comércio e lêem o Las Vegas Chinese Daily News.
Mas divago. Confesso que me lembrei de Las Vegas apenas por causa de um filme chamado "Fear and Loathing in Las Vegas" (em português calhou ser "Delírio em Las Vegas"). “Fear and Loathing in Las vegas” é uma história assinada por Raoul Duke, alter-ego do jornalista e escritor Hunter S. Thompson, publicada em Outubro de 1971 na revista "Rolling Stone". O jornalista era suposto ir a Las Vegas assistir a uma corrida de motos no deserto, encontrar-se com um fotógrafo português de nome Lacerda e escrever uma legenda. Lá foi, acompanhado pelo advogado e activista Óscar Zeta Acosta, a bordo de um descapotável vermelho a que chamavam “The Red Shark”.
A viagem a Las Vegas acabou por ser um pretexto para se narrar a transformação do propalado sonho americano num imenso pesadelo, grotesco. E acabou também por reflectir o estado da nação americana, que ressacava do "Summer of Love" de há dois anos e protestava contra a guerra no Vietname. Meses depois de a história ser publicada, Richard Nixon, o então presidente, era considerado o "Homem do Ano".
No filme, há uma altura em que Johnny Depp, vestido de Raoul Duke, comenta que "o meu sangue é demasiado grosso para o Nevada". Curioso. Aposto que o velho Hunter, entretanto desaparecido, em 2005, escreveria o mesmo caso passasse pela brasa de Macau. Um termo de comparação.

Publicado na edição de 19 de Julho de 2006 do Ponto Final

Segunda-feira, Julho 24, 2006

 
DO ABSURDO



Num outro dia, em conversa com um libanês, cristão maronita, radicado na Ásia há uma dezena de anos, a propósito da guerra que tem como palco o seu país, ele dizia-me entre outras coisas que o Líbano não tem exército próprio, apenas milícias armadas pela Síria e pelo Irão. Dizia também que este conflito não é nenhuma surpresa, pois nunca houve paz, apenas intervalos entre guerras. Dizia ainda que Sharon não teria feito o mesmo que estes responsáveis israelitas fizeram. E dizia que a história do pequeno país encravado entre Israel, a Sul, e a Síria, a Norte e a Este, se resume à "guerra dos outros na nossa terra".
Deve ser. Talvez. Perante o absurdo e os absurdos de todas as guerras, resta-nos pensar que são sempre "as guerras dos outros". Mesmo quando são na "nossa terra".

Domingo, Julho 23, 2006

 
AT THE DEPT. OF FORGOTTEN SONGS



Beastie Boys, The in sound from way out, 1996

 
I JUST DROPPED IN (TO SEE IN WHAT CONDITION MY CONDITION WAS IN)



Be careful, Dude. These men are nihilists.

Sexta-feira, Julho 21, 2006

 
MUNDOS E FUNDOS


Terça-feira, Julho 18, 2006

 
I'LL SETTLE DOWN WITH SOME OLD STORY



Get me away from here I'm dying
Play me a song to set me free
Nobody writes them like they used to
So it may as well be me
Here on my own now after hours
Here on my own now on a bus
Think of it this way
You could either be successful or be us
With our winning smiles, and us
With our catchy tunes and words
Now we're photogenic
You know, we don't stand a chance

Oh, I'll settle down with some old story
About a boy who's just like me
Thought there was love in everything and everyone
You're so naive!
They always reach a sorry ending
They always get it in the end
Still it was worth it as I turned the pages solemnly, and then
With a winning smile, the poor boy
With naivety succeeds
At the final moment, I cried
I always cry at endings

Oh, that wasn't what I meant to say at all
From where I'm sitting, rain
Falling against the lonely tenement
Has set my mind to wander
Into the windows of my lovers
They never know unless I write
"This is no declaration, I just thought I'd let you know goodbye"
Said the hero in the story
"It is mightier than swords
I could kill you sure
But I could only make you cry with these words


Belle and Sebastian, Get Me Away From Here I'm Dying

Inevitável, sucumbir a “doenças melancólicas e humores caprichosos”, como diz um psicólogo desta praça. Com música assim temos sempre "good news for people who love bad news". Histórias de final felizmente infeliz. Como se pode gostar tanto disso? Humores daqueles, certamente. Caprichosos. “Problema que pode ser resolvido não deve preocupar. Problema que não pode ser resolvido, para quê preocupar-se? Não há nada a fazer”. Palavra de psicólogo.

Segunda-feira, Julho 17, 2006

 
A NIGHT IN



Parece mentira. Leio no Bitsound que, no dia 17 de Setembro, em Londres, os Tindersticks dão um concerto onde tocam, na íntegra, o segundo álbum. Boa notícia? Assim, assim.
Um lei ditada por uma divindade qualquer (fé diversa, fé diversa), devia obrigar os senhores a espalhar essa boa nova que veio na forma de "o segundo álbum" pelo mundo inteiro. Experiência religiosa, pois. É o que é preciso.

Domingo, Julho 16, 2006

 
NÃO SE CONSEGUE VER A NOITE, SÓ A CHUVA



Chove como nunca vi chover desde que não me lembre que já vi chover tanto (ou mais) desde que cheguei a esta terra.
De Camões ainda se discute a passagem por estas bandas, uma matéria (como se apraz dizer) que sobretudo diverte os indígenas que vieram aportar longe, que é como quem diz, "não diz nada a ninguém".
Do bardo para chegar a Pessoa. Antes disso, Pessanha. Está enterrado ali ao lado. Não consta que tivesse morrido de amores por isto, isto é, Macau. O amigo Wenceslau foi morrer mais longe, acima. O pobre, coitado, ficou por aqui.
Mas Pessoa (eu não me esqueço), não reza que tenha viajado até este oriente do Oriente. Yet, no entanto, quer-me parecer que o homem veio descobrir aqui a chuva oblíqua. É que "oblíqua" é o termo. E termos assim não há muitos.

Sexta-feira, Julho 14, 2006

 
I ALSO SAY

With music strong I come, with my cornets and my drums,
I play not marches for accepted victors only, I play marches for
conquer'd and slain persons.
Have you heard that it was good to gain the day?
I also say it is good to fall, battles are lost in the same spirit
in which they are won.

Walt Whitman, Song of Myself

 
Um romano, há dois mil anos: nada que seja humano me é estranho.

Ouvido outro dia.

 
SPLASH



Wechsel Garland, Easy, 2006

Música ligeira feita com a força da técnica "glitch". Natalie Beridze, a senhora Tba, emprestou as lindas cordas vocais a dois temas.
O verão pede mais do que isto?

Quinta-feira, Julho 13, 2006

 
É RELATIVO

Digo que aqui está muito calor e dizem-me que aí também. Pois...



 
EXCUSE ME WHILE I KISS THE SKY

Syd Barrett passou-se, de vez. Paz à sua cabeça.
Meanwhile...



Shogun Kunitoki, Tasankokaiku.

They have been exploring the frequency spectrum since 1998, patiently perfecting their own idiom, a music of a past future that draws from the myriad synthetic sounds of the 20th century.



The crazy diamond shines on.

 
AT THE DEPT. OF FORGOTTEN SONGS




Galaxie 500, This is our music, 1990

Quarta-feira, Julho 12, 2006

 
SHAME ON YOU



Fahrenheit 9/11, uma baixa

Não foi possível resgatar o sargento Plouhar... O recrutador de "marines" americanos que aparecia em "Fahrenheit 9/11" a tentar persuadir um grupo de jovens da socialmente deprimida cidade de Flint, Michigan, que se alistassem, foi morto num atentado à bomba no Iraque, informou o Pentágono. Raymond Plouhar, 30 anos, morreu na semana passada devido a ferimentos. Faltava-lhe menos de um mês para cumprir a sua missão no Iraque, onde estava encarregue de detectar e fazer detonar explosivos. Plouhar não tinha ficado satisfeito pela forma como aparecia no documentário de Michael Moore: considerava que era retratado de forma agressiva tentando convencer os jovens a alistar-se. Chegou a acusar Moore de ter manipulado várias equipas de recrutamento, convencendo-as a deixarem-se filmar. Recorde-se: em "Fahrenheit 9/11" Plouhar aproximava-se de jovens negros num parque de estacionamento de um centro comercial da zona mais pobre de Flint, convencendo-os que os "marines" podiam ajudá-los a transformarem-se em jogadores de basquetebol.

Isto vem escrito na última edição do suplemento Y, do Público. A forma como o texto começa é, para não dizer mais, escusada. A ironia da história dispensa um comentário como aquele ("Não foi possível resgatar o sargento Plouhar..."), e só podemos pensar que para a malta do i grego o que aconteceu ao infeliz sargento foi bem feito. Foi?

 
CRÓNICA #2

Música no coração da cidade

Todas as cidades têm a sua música. Não digo um hino ou um "jingle" publicitário, mas a tradução musical de um pulsar, de um ritmo, mais ou menos cadente. De uma melodia, mais ou menos harmoniosa.
A história é pródiga a ilustrar. Temos assim a valsa de Viena, o fado de Lisboa e o fado de Coimbra - para não ferir susceptibilidades. A "country" de Nashville, o rock urbano-depressivo de Manchester. Os devaneios electrónicos de Sheffield e os arautos "techno", tal como na "Terceira Vaga", de Toffler, em Detroit, a "motor city". Por exemplo.
Há um cordão que liga cada uma daquelas cidades a um género de música, um cordão onde se estendem a paisagem, a arquitectura, a multidão, as ruas vazias, as ruas cheias, os carros, as luzes, as sombras dos edifícios. Uma ideia que remete para a existência de um subtexto, cujas camadas tornam difícil a sua descodificação. Conforme o mundo é cada vez mais das cidades, e estas são cada vez mais no mundo, e maiores, a influência mútua tornou-se mais difusa.
Pergunto-me que música inspira Macau, e que Macau inspira a música. As descargas industriais dos Einsturzende Neubauten parecem bater certo com o batimento das estacas. Acelerando o passo para longe dos estaleiros, a "pop de Cantão" debitada dos bares "karaoke" parece-me apropriada, enquanto ziguezagueio por entre as motinhas nos passeios e os bonecos "Hello Kitty" que esperam pelos donos dentro dos carros. Noutras latitudes, no Porto Interior a ver partir os barcos, ou à porta de um casino onde um perdedor fuma um cigarro, que melhor som do que o de um lancinante "erhu"? Que música, então? A resposta é simples: muitas.
E vem isto a propósito da vigésima edição do Festival Internacional de Música de Macau. O programa é extenso, e tornava-se exaustivo repeti-lo aqui. Durante um mês vai poder assistir-se a 28 espectáculos que parecem não deixar nada de fora. O ecletismo foi mesmo apresentado como "o" trunfo pelo director artístico do festival, Warren Wok. De tudo, para todos. Faz sentido que assim seja.
No meio de tanta diversidade encontrei aquilo que, para mim, resume (mas não confina) a musicalidade da cidade do nome de Deus. São três nomes improváveis de figurar numa mesma frase, e ainda mais de alinhar no mesmo cartaz: Richard Clayderman e Alva Noto + Ryuichi Sakamoto.
A música do homem do piano branco exalta o Kitsch, o romantismo dos corações néon, tremeluzentes, mudando de cor a cada batida. É música que ressoa nas mármores e nos dourados e no que mais se lembram estes amantes opulentos e sem limites.
A dos outros dois é humilde, recatada. Parca. Voa, ora rasante ora rasteira. Mas guarda sempre a devida distância. Como num sonho, onde a noite e o dia se confundem, imperceptíveis. Um mistério. O mistério de uma cidade de muitas identidades, cores, cheiros. O subtexto difícil de decifrar. A presença que não se vê, mas que se sente.
O duo, como é óbvio, sugere um sem fim de dicotomias. Do lado de Alva Noto (Carsten Nicolai) o frio das máquinas, o digital. Do de Ryuichi Sakamoto, o calor humano. Um ser vivo. O racional e o emocional, a electrónica e a acústica. A combinação não é inédita e os exemplos são vários. Um dos mais recentes e bem sucedidos é o de Fernando Corona, o mexicano que assina como Murcof, responsável por uma fusão verdadeiramente estimulante da música clássica com os microrganismos digitais. Como se Mahler viajasse no tempo. De resto, a carreira de Sakamoto sempre se pautou por incursões na electrónica, e esta colaboração com o alemão não causa perplexidade.
Mas há aqui elementos novos, resultado da aliança dos talentos de cada um. Para começar, o equilíbrio. É notável como as forças em jogo não se subjugam, como dialogam sem desconversar. Depois, a beleza. O conforto daquela clássica sensação de que "primeiro se estranha e depois..." Vocês sabem.
Piano melancólico e partículas electrónicas em suspensão, trabalhadas numa filigrana paciente. Sakamoto empresta alma, mas os mais atentos talvez se surpreendam com a humanidade e a gravidade das arritmias com que Alva Noto vai marcando as frases do piano. Ou com as ondas senoidais que aparecem e desaparecem, repetitivas como um mantra. A banda sonora ideal para parar e olhar. Para pensar sobre o destino das luzes que se apagam. Das luzes que reflectem os discos de ouro de Clayderman.
Elegante e minimal. Espaço, respiração. Linhas, ângulos. Curvas, ondas. Podia estar descrever um edifício. Quando Frank Zappa disse que "falar sobre música é como dançar arquitectura", não podia estar mais certo. A linguagem universal dispensa palavras, e o músico norte-americano, embora usando as duas artes para ilustrar um paradoxo, deixa entrever uma associação lógica. Falar desta música exige-nos procurar palavras noutro sítio qualquer. Porque esta música lá nasceu.

Publicado na edição de 10 de Julho de 2006 do Ponto Final

Terça-feira, Julho 11, 2006

 
CRÓNICA #1

Esperar pelo tempo

Em Macau, compreendo o que significa ter nostalgia de uma época que não se viveu. Das que se viveu também, mas isso são contas de outros contos. Vejo fotografias de outros tempos e pasmo. Não me admira tanto o muito que mudou como o pouco tempo em que isso ocorreu. As imagens podem ter 50 anos ou 5 meses, que o espanto é o mesmo
Dizem-me que desde há 10 anos o ritmo das transformações é o que se vê. Creio que perante tamanha pressa a tendência natural seja abrandar, se não mesmo parar.
O que vejo, confesso, também a mim me transforma. Estarei a ficar conservador. Assim mesmo: a ficar. Como se parasse. Como se parasse a olhar para Macau.
Esqueçam os conservadores, os filósofos políticos, Oakeshott e Burke, as infindáveis discussões, a sociedade e o indivíduo, a tradição e o progresso. Atente-se no significado mais lato: "aquele que conserva", que "guarda bem, retém na memória".
Imagine-se o conservador, alguém que manuseia minuciosamente um objecto antigo. Que desce às caves escuras, que sobe aos sótãos abafados. Alguém que se lembra. Lembrar é, afinal, a razão de ser deste conservadorismo. Quem pode dispensar a memória? A pergunta talvez faça mais sentido formulada de outro modo: quem pensa que pode dispensar a memória?
Talvez o problema seja a escassez de pisos subterrâneos onde não se acondicione mais do que automóveis. Talvez fosse subtrair demasiada terra ao mar. Nesses subterrâneos normalmente habita o passado, encafuado como o que já não interessa, submerso no escuro. Mas, pelo menos, tem um lugar.
Apesar de não ter conhecido Macau quando a fisionomia da cidade ainda não arranhava os céus nem a noite com as potentes luzes néon, ou quando ainda passavam juncos vagarosos, preservo esse imaginário algures na memória, que certos recantos (cada vez mais esconsos) do território teimam em lembrar-me.
Nos discursos do governo de Macau, a transformação do território e o desenvolvimento acelerado emparelham com a preservação do centro histórico, com a protecção do passado. Os mais incautos talvez notem aqui uma contradição. Os menos incautos talvez tenham dificuldade em perceber qual é, então, a prioridade. Por que correm?
Não obstante a criação de grupos de trabalho atarefados com o planeamento e o reordenamento das zonas antigas, clama-se por um regime jurídico "aperfeiçoado", capaz de harmonizar passado, presente e futuro. No frenesi, critica-se ainda, esqueceram-se da população que vive nesses bairros, que não é tida nem achada no processo.
Do continente, os sinais que chegam não apaziguam. A paciência e a perseverança, características que nos habituámos a reconhecer no povo chinês, parecem ter sido substituídas por um apetite insaciável, como se um gigante tivesse despertado de um sono profundo e milenar. Uma das civilizações mais antigas comporta-se como se não houvesse amanhã.
Na edição de ontem, dávamos conta de duas notícias reveladoras. De acordo com um estudo realizado pela Academia de Ciências Sociais de Xangai, de 2010 a 2020, na cidade, o número de pessoas com 60 anos ou mais deve crescer 170 mil em cada ano. Os mesmos especialistas afirmam que o fenómeno não se limita a Xangai, e que a capital económica da China lidera uma das maiores mudanças demográficas na história, com profundas implicações para todo o país. Em breve, dizem, a China debate-se com a carência de mão-de-obra. Depois de estimular a explosão populacional na década de 50 e depois de mudar a direcção, com a política do filho-único, Pequim criou uma situação de instabilidade entre a população jovem e a idosa. Os problemas são fáceis de adivinhar. Enfraquecendo o tecido económico, hipoteca-se o sistema de aposentações de grande parte da população.
Até lá, como se contava noutra notícia, o excesso de trabalho mata 600.000 por ano, vítimas do vertiginoso crescimento económico num sistema de "promoção ou eliminação", que obriga os empregados a trabalhar mais por iniciativa própria. Trabalhar até morrer.
Se houvesse problemas no progresso, tal seria meramente uma contradição de termos. O movimento para diante é inevitável, e os problemas existem no presente. Exigem progresso, uma noção tão vaga que deve ser suficiente para resolver todas as questões. Provavelmente, deve-se recuperar a paciência e a perseverança. Esperar. Como dizia Virgílio Ferreira, "se, porém, tenho razão, de que vale tê-la agora, se ter razão antes do tempo é de algum modo errar?"

Publicado na edição de 4 de Julho de 2006 do Ponto Final

Sábado, Julho 08, 2006

 
THE PIANO HAS BEEN THINKING, NOT ME




A acordar. Depois de acordar. A adormecer. A acordar. Outra vez. A levantar-me sorrateiramente da cama, como se não tivesse adormecido mais do que o devido. A trabalhar e antes disso, a ir para o trabalho. A trabalhar. A fazer uma pausa. Outra. A ir para casa. Em casa. Outra vez.



Sexta-feira, Julho 07, 2006

 
THE CLASH



Outubro. O mesmo festival traz a Macau Ryuichi Sakamoto+Alva Noto e Richard Clayderman, o próprio. Enough said. Quero ver.

Quarta-feira, Julho 05, 2006

 
AT THE DEPT. OF FORGOTTEN SONGS




KLF, Chill Out, 1990

 
IT'S A LONG ROAD



there's no turning back.

Terça-feira, Julho 04, 2006

 
INSIDE AND OUT AGAIN AND AGAIN




O ano anda, sensivelmente, a meio. Mas desconfio que até o outro começar apareça melhor do que isto: "Born again in the USA", Loose Fur. Mais não fosse, tem um tema chamado "Wreckroom", que mais parece um EP dentro de um LP. Como eles dizem, "an ecumenical matter".

Reparo que escolhi (involuntariamente) o dia 4 de Julho para tecer loas a um disco chamado "Born again in the USA". A escolha (voluntária) do dito dia era para coincidir com o facto de o ano andar, sensivelmente, a meio. Mas, para quê contrariar os efeitos de forças diversas?

Domingo, Julho 02, 2006

 
SEM MISTÉRIO

O dia 2 de Julho de 1980 foi há 26 anos.

Arquivos

Junho 2006   Julho 2006   Setembro 2006   Outubro 2006   Novembro 2006   Dezembro 2006   Janeiro 2007   Fevereiro 2007   Março 2007  

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

Subscrever Mensagens [Atom]